Novo marco da EaD: o que está por vir e como se preparar

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Novo marco da EaD: o que está por vir e como se preparar

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Durante o 30º CIAED, Congresso Internacional ABED de Educação a Distância, um dos debates abordou uma pauta que tem sido muito aguardada: a proposta do novo marco regulatório para a EaD. A equipe da Obi.tec esteve presente e traz, em primeira mão, o que foi abordado.
O debate foi coordenado pelo professor João Vianney, com participação de Leandro Magalhães, coordenador de Pesquisa e Extensão do Centro Universitário Filadélfia (UniFil); e Evandro Ribeiro, gerente Executivo do Ensino Superior do Claretiano Centro Universitário. Também teve participação do público, que enriqueceu o debate trazendo questões do dia a dia das instituições.

Foram apresentados os bastidores da formulação da proposta, os pontos de atenção e as expectativas em torno de sua publicação, que deve ocorrer em breve. Embora o texto oficial ainda não tenha sido divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), o que se sabe até aqui já tem mobilizado o setor.

Expectativa e cautela

A expectativa pela publicação do novo marco é alta. Segundo os participantes da mesa-redonda, o conteúdo ainda não foi apresentado publicamente na íntegra. O texto estaria finalizado desde o fim de 2023 e, desde então, passa por análise da Casa Civil. A assinatura presidencial é o último passo antes da publicação oficial. Entretanto, a demora em aprová-lo tem gerado apreensão entre as instituições. Enquanto o novo decreto não é publicado, o calendário regulatório está parcialmente suspenso, o que tem afetado processos como credenciamento de novos cursos e abertura de polos.

A necessidade de revisar o marco regulatório da EaD não é novidade. Com o crescimento expressivo da modalidade nos últimos anos, impulsionado por avanços tecnológicos, mudanças nos perfis dos estudantes e novas abordagens pedagógicas, surgiu também a urgência de atualizar as regras que organizam a oferta de cursos a distância no país. O atual cenário demanda parâmetros mais claros e atualizados, que deem conta das especificidades da modalidade e acompanhem as transformações em curso no ensino superior. O novo marco, segundo os participantes, tem como objetivo justamente garantir mais segurança jurídica às instituições e reforçar os critérios de qualidade acadêmica.  

O que está em debate

Alguns pontos já conhecidos do novo marco têm sido debatidos entre representantes do setor, e foram destacados pelos palestrantes. Segundo eles, um dos temas mais discutidos é a possível exigência de aulas presenciais obrigatórias em cursos de educação a distância, especialmente nas áreas de licenciatura, saúde e engenharias. A proposta incluiria um percentual mínimo de atividades presenciais em determinados cursos. A medida tem como objetivo aproximar os estudantes de práticas profissionais e garantir maior interação com docentes e tutores.

Entretanto, instituições que atuam em regiões mais afastadas ou em municípios de menor porte manifestaram preocupação com os impactos operacionais e logísticos dessa exigência. Em muitos casos, a EaD é a única forma de acesso à formação superior nessas localidades. De acordo com dados apresentados no evento, mais de 3 mil municípios brasileiros contam com oferta de cursos a distância. Muitos deles sem alternativa presencial disponível.

Outro ponto que apareceu no debate é a proposta de limitar o número de estudantes por tutor em atividades síncronas. A intenção seria garantir um atendimento pedagógico mais próximo e efetivo, o que é bem-visto por muitos educadores. Ao mesmo tempo, representantes de instituições ressaltaram a importância de respeitar a diversidade de modelos pedagógicos existentes na EaD e a autonomia das IES para definir sua organização didático-pedagógica.

Um aspecto que também ganhou destaque foi a preocupação com a manutenção da flexibilidade, uma das principais características da educação a distância. Muitos alunos optam pela modalidade justamente por poderem conciliar os estudos com outras atividades da vida adulta, como o trabalho e o cuidado com a família. Nesse sentido, as instituições presentes no debate alertaram que regras muito rígidas podem acabar afastando os estudantes que mais se beneficiam da EaD. A personalização da aprendizagem, que vem ganhando espaço em diversos países, também foi mencionada como um princípio que precisa ser preservado na nova regulamentação.

Uma parte importante da discussão tratou da supervisão institucional. Enquanto o novo marco busca estabelecer critérios mais detalhados para a regulação da modalidade, participantes do painel chamaram atenção para a necessidade de retomar com força os processos de supervisão de cursos e instituições. A percepção de parte do setor é que uma nova regulamentação, por si só, não resolverá os problemas se não vier acompanhada de uma estratégia efetiva de supervisão e fiscalização.

Impactos possíveis nas instituições

Os debatedores ressaltaram que, qualquer que seja o conteúdo final do novo marco, ele deverá exigir adaptações por parte das instituições. Entre os possíveis efeitos, estão:

  • Reestruturação de polos e da matriz curricular de cursos;

  • Redefinição da atuação de professores e tutores;  

  • Ajustes nos investimentos em infraestrutura presencial;  

  • Revisão de estratégias de expansão para novas regiões;

  • Impactos financeiros, com possíveis aumentos nos custos operacionais.

As instituições foram orientadas a manter um acompanhamento próximo das discussões regulatórias e a realizar simulações internas com base nos cenários já conhecidos. A preparação prévia pode facilitar a adaptação e evitar impactos maiores quando as novas diretrizes forem efetivamente implementadas.

O debate encerrou com uma mensagem de mobilização. Segundo os organizadores, este é um momento estratégico para que as instituições compartilhem experiências, levantem dados e participem dos espaços de construção coletiva da regulação. Representantes reforçaram a importância de dialogar com entidades do setor, com o próprio MEC e com parlamentares interessados no tema.

Recomendações práticas para gestores: como se preparar para o novo marco da EaD  

1) Acompanhe de perto as atualizações oficiais

Fique atento às publicações do MEC, do Diário Oficial da União e às manifestações das entidades representativas do setor. Assim que o novo marco for publicado, será importante agir com agilidade.

2) Revise seu portfólio de cursos e polos

Avalie quais cursos podem ser impactados por mudanças nas exigências de presencialidade ou carga horária. Simule diferentes cenários de operação com e sem alterações regulatórias.

3) Atualize a equipe acadêmica e regulatória

Promova encontros internos com coordenadores e tutores para debater as possíveis mudanças e alinhar expectativas. Manter a equipe bem-informada é essencial para transições organizadas.

4) Reforce a articulação institucional

Participe ativamente de fóruns, associações e redes de ensino superior. O diálogo entre instituições fortalece o setor e permite posicionamentos coletivos mais consistentes junto ao MEC.

5) Planeje com base em dados

Use dados internos (acadêmicos, financeiros e operacionais) para tomar decisões estratégicas. Um bom diagnóstico, e boas ferramentas tecnológicas para obter e armazenar esses dados, pode ser a chave para adaptações sustentáveis e eficazes.


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